Sabe aquele computador que você fica paquerando na vitrine e visita todo dia na internet? Recentemente eu comprei um. E hoje ele me levou a uma das experiências mais diferentes e inacreditáveis que minha vida de pouco mais de vinte anos já presenciou. No tal notebook, um pedaço da minha vida: milhares de fotos de tempos com amigos que já seguiram outros caminhos, músicas pra ouvir por mais de um mês sem repetir nenhuma, trabalhos pra pagar meu aluguel no final do mês e um texto de quase trinta páginas que vou apresentar como TCC pra concluir a faculdade.
É aí que a história começa…
A tarde, no escritório, rompi o clima de concentração de todos ao perguntar:
- Alguém sabe o que tem a ver um polvo com a Dilma Roussef?”.
Não entenderam. Tentando ser mais explicativo, mostrei uma ilustração que havia recebido por e-mail, com uma charge política que envolvia desenhos dos candidatos à presidência e um polvo esquisito.
- Ah, esse o o polvo vidente – comentou minha chefe. – Num bar, lá na Alemanha, tem um aquário com um polvo que adivinha os times que vão ganhar nos jogos da Copa – explicou ela, afirmando que era tudo que sabia sobre o assunto.
Fiz uma viagem mental que mais pareceu um daqueles devaneios, quando olhamos pra um ponto fixo que, na verdade, representa lugar nenhum e deixamos nossa mente voar perdida e sem rumo. No itinerário, não sei explicar por que, o tal polvo me lembrou uma matéria que li sobre Spinoza. Spinoza, em poucas palavras, foi um filósofo belga com origem lusitana que desenvolveu uma teoria fundamentalista capaz de abalar o pensamento do século XVII. Ele dizia que tudo estava cosmicamente interligado.
Ate aí, assim, como você, eu achei a matéria idiota. Pareceu papo de charlatão. Mas a explicação continua: tentando buscar a Deus para fortalecer sua fé, Spinoza acabou analisando e vislumbrando a própria humanidade.
Finalmente, ele chegou à seguinte fundamentação: assim como as células de nosso corpo são únicas mas, separadas, não são capazes de formar nosso corpo, o universo também é formado por partes interconectadas que pulsam vida. Essas partes, seja eu, você, a natureza ou qualquer ínfimo detalhe que contribui para a harmonia da vida na Terra, estão diretamente relacionadas no equilíbrio do que chamamos de paz.
- Talvez seja por isso que o polvo consegue adivinhar quem ganha a Copa – brinquei. – Estamos conectados…
Foi um devaneio longo, concordo. Mas me lembrei dele diversas vezes enquanto meu padrasto acelerava a carro a mais de 150 km/h atrás do ônibus onde, completamente sonolento, com pressa e bravo pela chuva que não parava, eu havia esquecido a mochila com meu computador e, por tabela, parte da minha vida.
Ele, meu padrasto, tinha um jantar com os irmãos. Mas não se acomodou em me ajudar quando dei por conta que a mochila não estava do lado da mala com roupas sujas que todo final de semana eu levo de presente para o entretenimento matutino de minha mãe em cada novo sábado. Só percebi o esquecimento quando já estávamos quase chegando em casa. Corremos, de volta para o asfalto, atrás de parte da minha vida que ficar no ônibus.
Liguei pra minha mãe. Contei a história e, confesso admirado, não levei nenhuma das esperadas admoestações. No lugar de “e onde estava com a cabeça?”, ela buscou ajuda e fez diversos contatos – orações, ligações, etc – para encontrar, em rodoviárias ou paradas de ônibus, alguém que pudesse ajudar.
No asfalto, voando atrás do ônibus, também eu tentava contato quando o sinal do celular permitia. Recebi uma ligação.
- Jean, consegui – disse minha mãe. – Falei com uma tal de Chica, lá em Saldanha Marinho. Ela trabalha na rodoviária e vai pegar a mochila pra você.
Um detalhe importante: corroborando com a chuva e o estado de espírito não muito alegre, tive que vir de Ijuí a Panambi em pé, num ônibus lotado e abafado. Motivo esse pelo qual eu não tinha acento marcado e, justamente por isso, também não era capaz de informar com precisão a que altura do bagageiro eu tinha deixado a mochila. Só sabia que ela era preta – uma informação particularmente inútil.
Meu padrasto e eu, enfim, chegamos em Saldanha – uma cidade na qual eu nunca havia estado antes – e procuramos a rodoviária. Uma noite tipicamente fria e chuvosa de inverno havia soprado da rua todas as possíveis pessoas a quem podíamos pedir informação. De repente, uma moça simpática atravessa a rua em nossa frente e, serenamente, informa que estávamos bastante perto.
Quando chego na rodoviária, provavelmente com uma cara que juntava expressões de nervosismo, susto e uma grande dose de panaquice, peço pela Chica. Era a moça com quem eu falava, que sorriu: – Você deve ser o Jean.
Dela, eu sei somente o fato que trabalha na rodoviária de uma cidade que dorme incomunmente cedo no inverno. De mim, ela deve saber, a julgar pelo cartão de visitas que minha mãe pediu que identificasse dentro da mochila, que trabalho com comunicação e que sou alguém muito desligado.
Do meu padrasto eu conheço um pouco mais, pelos cerca de três anos que convivência. E, da minha mãe, dessa eu conheço muito, mas a cada dia que sinto saudades lembrando de como é “morar da casa da mãe”, percebo que careço conhecer um pouco mais.
Porque citar os personagens de uma aventura não esperada num texto que se encaminha pro final? Me desculpem a metáfora, mas é porque estamos tão conectados quanto Spinoza e o polvo.
Sério: percebi, num esquecimento que virou uma grande lição, como dependemos de pessoas culturalmente tão diferentes mas humanamente tão idênticas para conseguir equilíbrio, paz, tranqüilidade. Percebi isso quando Chica se recusou insistentemente em aceitar o dinheiro que ofereci para pagar pela ajuda. Isso se chama ética, e depois, me envergonhei de tê-lo oferecido. Percebi isso quando meu padrasto se recusou em me deixar abastecer o tanque do carro como agradecimento. Isso se chama amizade. Percebi isso, por fim, na desesperada ajuda de minha mãe em restabelecer a parte da minha vida que havia ficado no disco rígido do computador que partira sem mim. Isso se chama amor, uma pequena amostra, eu sei, do que ela é capaz de fazer por mim.
Como agradecer, então? Resolvi escrever. Escrever um bilhete com estas palavras que deixei no quarto de minha mãe antes de sair. Escrever e imprimir tais palavras, para remetê-las em uma carta pelos correios à uma desconhecida Chica no endereço da rodoviária de Saldanha Marinho. Finalmente, escrever pra postar uma experiência inusitada em meu blog.
Acredito que, sim, estamos conectados uns aos outros de modo que seria impossível viver em paz sem outras pessoas por perto para compartilhar esperanças e sentimentos de querer bem. E, no fim das contas, acredito que isso é ter fé.
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